ANGOLA: A morte de Savimbi


Savimbi morto ( foto Revista Expresso)

Nelson Mezquida

Um estado de paz em que o pais – que conta com petróleo e diamantes em abundância - poderia gerar riqueza e bem estar para 10 milhões de habitantes não foi possível nos quase 27 anos de vida independente. Todos tem sido de guerra e desolação. Savimbi foi um dos responsáveis.

Eram talvez mais das oito horas da noite de sexta-feira 22 quando me assomei ao terraço porque estava ouvindo uma gritaria de centenas de vozes. Vinham do outro lado da ribanceira de onde corre o rio Candombe, do outro lado da cordilheira por onde corre o rio Candombe velho. Pensei que a gritaria se devia a que uma coluna de camiões tinha conseguido chegar da capital, Luanda, sem sofrer um ataque dos guerrilheiros da UNITA.

Perguntei ao porteiro se sabia a causa da gritaria. Disse-me arregalando mais ainda os seus grandes olhos e fazendo brilhar mais que o costume os dentes enormes na sua cara escura: "a rádio diz que Savimbi morreu". A rádio disse que Savimbi morreu. Entendi a notícia como uma faca que cortava o fio da história, que interrompia uma série de causas, deixando-as sem efeito, e que dava lugar a outra série de causas para consequências que são imprevisíveis.

Jonas Malheiro Savimbi, o doutor Savimbi, o presidente Savimbi, o Mano velho, "o irmão velho", o fundador e chefe indiscutível da União Nacional para a Independência de Angola (UNITA) tinha morrido. As vozes de alegria por essa morte nesta cidade que foi ocupada durante dois anos eram o sinal claro de que aqui a presença dos guerrilheiros não tinha deixado uma boa recordação. Mas o festejo da gente foi afogado de imediato porque de todos os abrigos de segurança que abrigam a cidade começaram a aumentar as rajadas de armas ligeiras, de espingardas e metralhadoras.

Corremos para nos refugiarmos no lugar mais seguro da casa para nos protegermos de uma bala perdida, como fizemos a 25 de Junho do ano passado quando a UNITA sitiou a cidade por seis horas e esteve a ponto de tomá-la. Os comandos tiveram de correr de um lado para o outro para deter aquela acção insensata, que, pelo que se sabe, se repetiu noutras cidades de Angola. O tiroteio manteve-se durante algum tempo, até que foram acatando as ordens de guardar as armas, ou até os mais desobedientes esgotarem os carregadores. Muitos que não conheciam fugiram para o monte crendo que se tratava de um ataque a causa do tiroteio.

Segundo o comunicado radiofónico das 20, Savimbi tinha caído numa emboscada à três da tarde. O chefe da UNITA, organização também conhecida como a força do Galo Negro, ia com um grupo de 30 homens que o acompanhavam. As declarações do general que comandou o ataque dizem que todos os acompanhantes morreram e o último a ser abatido foi Savimbi. As imagens do seu cadáver deixavam ver uma ferida no pescoço que faz presumir que o próprio Savimbi disparou contra si para não cair vivo nas mãos do inimigo. Mas o oficial diz que caiu em combate abatido por 15 balas.

Tinha 67 anos o homem que – desde que tomou contacto com os movimentos que estavam no início da guerra colonial contra o poder português na década de 60, o Movimento Popular pela Libertação de Angola (MPLA) e a Frente Nacional pela Libertação de Angola (FNLA) – nunca aceitou ser segunda figura. Tinha-se incorporado na FNLA e em pouco tempo foi secretário mas via que o movimento pecava de "tribalismo" e decidiu, em 1966 fundar o seu próprio partido.

O homem que conheceu CHE, quando os cubanos estavam no Congo ajudando todos os movimentos anti coloniais, terminou de certo modo como ele, morto numa emboscada. Mas só até aqui chega a semelhança. Porque Franz Fanon, o dirigente socialista argelino, já naqueles anos demonstrou desconfiança de Savimbi. Se Che supôs que Savimbi lutava pelos ideiais do socialismo enganou-se. Já no começo do caminho até ao fim do colonialismo enfrentou os que tomaram o poder em Angola e que na Guerra Fria ficaram no que então era o bloco que liderava a União Soviética.

Em Novembro de 1975 os militares portugueses que tinham acabado com o regime corporativista e colonialista que restava como herança da ditadura de Salazar, no momento de fazer a transição do poder o entregaram ao grupo com mais afinidade ao movimento do Capitães de Abril, que tinham devolvido a democracia a Portugal e que na sua maioria simpatizavam com a revolução cubana.

O MPLA manteve-se com o apoio cubano e soviético. Enfrentando-o estava a FNLA que era anticomunista e contava com o apoio total dos Estados Unidos e de Mobutu no que então era Zaire e hoje Congo Democrático. Também o enfrentava a UNITA apoiada por Washington e pela África do Sul no tempo do apartheid, pelos antigos colonialistas portugueses e pela China, um apoio que terminou quando o primeiro soldado sul africano entrou em território angolano.

A FNLA foi derrotada quando Holden Roberto, seu dirigente, se apressou a ordenar um ataque com a intenção de tomar Luanda, a capital de Angola, que desde sempre foi um bastião do MPLA. Derrotado Roberto, Savimbi ficou como cabo de guerra da luta anticomunista em Angola. Na década de 80 foi a super estrela, recebido com apreço nos círculos republicanos estado-unidenses. Os governos de Ronald Regan e de George Bush pai deram-lhe apoio, um encosto que foi funesto para Angola. Savimbi conseguiu destruir o país e impedir que fosse uma economia independente. Contou com outros apoios exteriores importantes: a direita francesa e, em Portugal a família Soares, além do não menos significativo apoio indirecto que recebeu de todos os grandes comerciantes que acompanharam os diamantes que a UNITA extraia das zonas que controlava.

A estrela de Savimbi começou a escurecer no final da década de 80, nos renhidos combates que tropas cubanas e angolanas travadas para expulsar os sul africanos do território angolano. Na decisiva batalha de Cuito Canavale os soldados do apartheid foram derrotados e obrigados a render-se. Consequência de essa batalha foi a formação de uma troika – Estados Unidos, Rússia e Portugal – para restabelecer a paz em Angola. Em Bicesse acordou-se que as tropas cubanas regressariam a Cuba e que iniciaram-se os trabalhos para as eleições de 1992.

Muitos observadores davam como segura a vitória de Savimbi. Era um homem de grande carisma, muito culto – formado em ciências políticas e jurídicas pela Universidade de Lausana -, e contava com a vantagem de aparecer como a alternativa a um regime ao que uma grande parte do povo considerava corrupto. Alguns partidários do MPLA pensavam votar nele procurando um caminho que melhorasse o país. Mas Savimbi foi mal aconselhado pelos seus assessores políticos; nos seus discursos jactava-se das acções militares levadas a cabo pela UNITA. Não vacilou em ameaçar que no dia seguinte do seu triunfo ia expulsar dos seus lugares de trabalho aqueles que não simpatizavam com ele. O seu discurso assustou-os e em pouco tempo desiludiu uma parte dos seus potenciais votantes que anunciavam o seu triunfo. Um graffiti numa das paredes de Luanda dizia: "MPLA rouba, UNITA mata".

Savimbe não aceitou o resultados das urnas e lançou um ataque contra o MPLA no poder. Ele e os seus homens aproveitaram que o exército nacional tinha sido praticamente desarmado no cumprimento dos acordos e lançaram-se ao ataque. Quiseram tomar Luanda mas foram expulsos pelas forças da polícia e civis armados. Em Outubro de 1992 a UNITA já dominava 75% do território. A luta pela conquista e reocupação das cidades provocou enormes sofrimentos na povoação civil, que nunca foi respeitada por nenhum dos grupos na fúria da guerra. Multidões tiveram de abandonar as suas casas, as aldeias, para ir refugiar-se nos arredores das cidades. Nas cidades sitiadas muitos morreram de fome (...).

O governo mobilizou e reorganizou o exército e em 1994 estava em condições de reconquistar as cidades nas mãos da UNITA. Prestes a ser derrotado Savimbi o governo dos Estados Unidos salvou outra vez o seu homem. Pressionou o governo angolano para que detivesse a ofensiva porque já "era tempo de parar as hostilidades e promover a paz e a reconciliação". O Conselho de Segurança e o secretário geral das Nações Unidas também pressionaram, e tudo se encaminhou para que em 20 de Novembro de 1994 se assinasse o Protocolo de Lusaca. Com ele se iniciou um novo processo de paz.

Na altura do acordo o MPLA controlava todas as capitais de província enquanto que a UNITA o fazia no restante território, incluindo as extensas zonas diamantíferas na região chamada As Lundas, no nordeste do país. O governo em geral cumpriu as exigências do acordo mas a UNITA negou-se a desmobilizar as suas forças e a entregar as zonas que controlava.

Fechando os olhos às evidências deu-se o próximo passo com a esperança de que integrando Savimbi num processo de politização terminaria renunciando ao uso das armas. Mas este desejo não foi correspondido; o Conselho de Segurança respondeu impondo-lhe sanções com a excepção da venda de diamantes. A UNITA contestou cortando todos os contactos com os representantes do governo e das Nações Unidas.

Se bem que a riqueza de Jonas Savimbi fossem os diamantes, o MPLA contava com os fabulosas receitas do petróleo, uma riqueza não menos fabulosa que tem o país. Com as receitas do petróleo o governo conseguiu armar-se e reorganizar o seu exército. Uma vez conseguido isto lançou-se ao ataque dos bastiões de Savimbi. Fazia dois meses corriam notícias sobre o ataque por parte das tropas do governo às forças da UNITA e, sobre tudo, à coluna de Savimbi, .

Nesta fase da guerra, segundo algumas fontes consultadas, o propósito do governo era liquidar Savimbi e exterminar a UNITA, considerando insensato ceder a pressões internacionais para fazer um novo acordo de paz.

O homem que manejou milhões, que foi o dirigente carismático do seu povo, o ovimbundo, terminou encurralado, sem abastecimentos, atravessando rios para despistar os seus perseguidores. A imagem na televisão do seu cadáver numa povoação miserável de Angola, a cento e poucos quilómetros da Zâmbia, era penosa. Final previsível, dado que não se apercebeu de que os tempos tinham mudado, mas ele não era um político mas sim um guerreiro. Um homem de manobras tácticas e não estratégicas.

Como um paradoxo da história, enquanto Savimbi morria, o seu rival José Eduardo dos Santos, presidente de Angola, como vencedor total, era recebido por Bush, que sempre simpatizou com Savimbi e no entanto repudiava os membros do MPLA por comunistas.

Depois de que Eduardo dos Santos se entrevistou com o presidente de Portugal, Jorge Sampaio, anunciou que trabalhará pela paz e a reconciliação, e promete para dentro de um ano ou dois eleições transparentes. Se conseguir a paz e a reconciliação passará à história com o mesmo prestígio do herói nacional angolano, o doutor Agostinho Neto.

Tradução livre.

http://www.lafogata.org/02inter/internacional1/angola.htm