![]() |
Agostinho Neto: a sacralização de um déspota |
PÚBLICO, 28-11-2005
CARLOS PACHECO*

Agostinho Neto (foto Net)
Acaba de vir a lume em Portugal uma biografia assinada por vários
autores consagrada a Agostinho Neto Uma vida sem tréguas, 1922/1979 -, que tem no
jornalista Acácio Barradas o seu coordenador.
A primeira impressão que se colhe desta obra é o tom de unanimidade que percorre todos
os seus textos. Nenhum dos depoimentos oferece um relato histórico objectivo da
personalidade e do percurso político do líder africano. Talvez porque as pessoas
convidadas a dar o seu testemunho estejam todas intimamente ligadas ao regime do MPLA e
incapazes, por um mimetismo ideológico, de falar de um outro Neto, diferente do
estereótipo propagandístico que se tem esculpido dele.
Efectivamente a imagem que o livro fixa do fundador do Estado angolano é a do humanista,
do chefe carismático, dotado de virtudes excepcionais e que sabiamente governou o seu
povo. No entanto, da primeira à última página não se encontra uma voz dissonante,
todos vão na mesma direcção ao render culto à figura do "herói". O livro
funciona qual uma peça de ritual destinada a consolidar o mito, sendo que para isso se
silenciaram determinadas acções de Neto à cabeça do movimento de libertação, e
depois como estadista, deixando de lado o extenso catálogo das suas vítimas, o
desastroso balanço da sua governação e o deserto trazido a Angola pela desvairada
intolerância da sua "república".
Neto personificou em África, como mais ninguém, "as doutas trevas do socialismo
autoritário", para usar uma expressão de Octávio Paz, escritor mexicano. Na Angola
que ele concebeu não havia lugar para os moderados nem para os sem partido. Uns e outros
eram fustigados na imprensa oficial como suspeitos de se quererem substituir aos antigos
senhores. Ficar de fora [ou não se juntar ao MPLA] significava ser inimigo do povo, ser
contra-revolucionário. Aliás, lembro-me de um comício em 1976, no largo do palácio, em
que Neto ao discursar para a multidão ali concentrada a incitou com estas palavras:
"se virem um contra-revolucionário levem-no à DISA" [a polícia política].
Contra-revolucionário no léxico dos ideólogos do MPLA não servia tanto para
identificar as pessoas que descressem em silêncio [e na intimidade de si próprias] das
propostas da ideologia dominante; mas as que não participavam "dos rituais e das
práticas exteriores" que conferiam "existência material" à ideologia. Um
dos rituais era dar vivas ao MPLA e ao camarada presidente Agostinho Neto no final de cada
reunião [de braço levantado e punho cerrado]; ou varrer as ruas, ou cortar
cana-de-açúcar no Caxito, ou descarregar navios.

Fidel em Havana e Neto em Angola cortando cana de açúcar
(foto Net e Agostinho Neto Uma Vida Sem Tréguas)
Os servidores públicos conformavam-se e aderiam a estes exercícios.
Era o que os dirigentes chamavam de reeducação das massas na produção directa. Não
seguir estes preceitos pressupunha riscos muito sérios. Era-se acusado de
pequeno-burguês e de traidor aos princípios revolucionários. Nem a população europeia
foi poupada a tais constrangimentos. Segundo o próprio Neto, ela também deveria
associar-se às comissões populares de bairro, à defesa popular e a "todas as
formas de organização" do MPLA.
Era um quotidiano infernal fundado no conceito do "homem novo", que reproduzia
a rotina do "socialismo realmente existente" da União Soviética, da
China e de outras "democracias populares"; e que Václav Havel, ex-presidente da
República Checa, descreve muito bem no Poder dos sem Poder. Por medo, os súbditos
submetiam-se a este estilo de vida e adoptavam aquilo a que Boris Pasternak, escritor
russo (1890-1960), deu o nome de "linguagem da mudez", porque só ela garantia a
sobrevivência e o êxito de quem a usava.
Dizer que Neto exerceu um papel notável nos negócios da administração do país, é
esquecer o desmantelamento anárquico a que se procedeu nas estruturas intermédias do
aparelho de Estado, nas fábricas e em outros sectores económicos. A extinção das
juntas de freguesia e das administrações civis é um exemplo entre muitos. Com a
integração destes órgãos nas comissões populares de bairro, logo adveio o caos: a
maior parte dos arquivos desapareceu, roubados ou queimados. Pelo país fora centenas de
arquivos conheceram a mesma sina provocada por reestruturações irracionais. Nas unidades
de produção confiou-se a direcção a Comissões administrativas que foram preenchidas
por incompetentes, analfabetos e comissários políticos que, glosando o estribilho da
"unificação de todos os trabalhadores", se entregaram a uma rapina
sistemática dos bens públicos.
Quanto mais Neto perorava sobre a transformação da economia colonial numa economia ao
serviço do povo, mais Angola se afundava. Ele e os do seu grupo, na verdade, não tinham
a menor percepção dos problemas do país. Vindos da guerrilha somente embebidos de
palavras de ordem, assim passaram a governar: com exortações e com quadros políticos de
fraca envergadura e sem nenhuma preparação técnica, mas que Neto em Setembro de 1975
considerava os mais aptos a gerir o desenvolvimento nacional pela via socialista em
íntima ligação às massas populares.
Por outro lado, apontar Neto como um humanista, é uma redundância. Um humanista não
assassina e não persegue os seus rivais com a fúria com que ele o fez desde os tempos da
luta armada; um humanista não cria um Tribunal Militar Especial, totalmente invisível,
responsável entre 1977-79 pela liquidação física de milhares de cidadãos nacionais, a
lembrar as tristemente célebres Alçadas dos tempos do absolutismo monárquico; um
humanista não permite torturas e execuções sumárias, não provoca assassinatos
jurídicos, não tolera práticas abusivas de investigação criminal e sequer mantém em
cárcere privado tanta gente durante vários anos.
Pelo contrário, um humanista pauta-se pelo respeito à justiça e pela defesa dos
direitos e garantias dos cidadãos. Deste modo, ao agir por vingança qual um deus da
morte, Neto manchou a dignidade do seu cargo e apenas mostrou ser o chefe de um Estado
facinoroso que não soube defender os seus filhos.
Tão-pouco se pode tê-lo na conta de um democrata. Já não o era nos tempos de estudante
em Portugal, como o puderam perceber alguns dos seus colegas que conviveram com ele mais
intimamente, entre os quais Amílcar Cabral. A sua pulsão autoritária era patente nos
mínimos gestos. O resto viria a confirmar-se no maqui. O seu conceito de autoridade
revelou-se sempre do tipo marcadamente cesarista. Ele não se esforçava por aplicar a
arte da sedução e da persuasão, especialmente com os indiferentes e recalcitrantes,
afim de assegurar a união das hostes. Por ter construído a sua autoridade pela forca,
pela subjugação e pela ameaça, não admitia questionamentos.
Desgraçado de quem lhe desobedecesse. Foi um tirano na acepção rigorosa da palavra.
Replicar-me-ão que uma das virtudes de Neto foi a firmeza com que defendeu a integridade
territorial de Angola. Com certeza, todavia isso não basta para o qualificar como um
político superior. Stalin também defendeu a sua "Santa Rússia" da invasão
hitleriana, mas nem por isso deixou de ser um monstro para o seu povo. Talvez me perguntem
se, depois de tudo, Savimbi ou Holden Roberto não teriam feito melhor à testa do Estado.
Nem pensar. Teria sido pior.
*HISTORIADOR ANGOLANO