Revista Expresso, 2 de Março de 2002

JONAS SAVIMBI


Savimbi (foto Revista Expresso)

O grande problema com vista à pacificação é que a «UNITA savimbista» nunca aceitou os acordos de Lusaka

"Jonas, Savimbi morreu de armas na mão e entrou na lenda. Único, insubstituível, como sempre quis ser e foi. A União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), que criou em 1966 e refundou várias vezes, morreu com ele.

No entanto, todos os analistas coincidem numa opinião: a sobrevivência da UNITA como grande força de oposição é fundamental para dar continuidade ao processo de democratização em curso em Angola e determinará, a médio e largo prazo, a natureza do regime, o modelo de desenvolvimento e o lugar de Angola na África Austral e no Mundo.

O futuro da UNITA, o movimento do Galo Negro, será traçado pela nova direcção que emergirá (ou não?) da fase de transição que agora começa. Um período difícil e cheio de incertezas, para a UNITA mas também para o Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA, principal partido no poder em Luanda), as oposições, as Igrejas, as Organizações Não Governamentais (ONG), habituados a reagir às iniciativas de Savimbi, o «Mais Velho». Para não falar das pressões da comunidade internacional, liderada pelos Estados Unidos, que colocou como primeiras prioridades da sua agenda a solução da crise humanitária, a melhoria das condições de vida da população e a estabilidade e segurança regionais. Os candidatos à sucessão de Savimbi vão ter que equacionar cuidadosamente todos estes factores, sob pena de repetirem erros estratégicos que levaram o líder à morte e o Galo Negro ao impasse. O «trono» não ficou vazio: a megalomania não cegou Savimbi ao ponto de se julgar eterno. Nas últimas entrevistas fez alusões à sua morte.


Savimbi (foto Revista Expresso)

As mortes de Salupeto Pena (em 1992) e de Arlindo Pena «Ben-Ben» (em 1998) fizeram fracassar uma «solução dinástica», que fazia destes dois sobrinhos de Savimbi- filhos da sua irmã mais velha - herdeiros naturais do «rei», segundo «Grande Chefe», na tradição matrilinear dos bailundos. Na última fase da guerra, Savimbi encarou a possibilidade de ser capturado ou de ficar incapacitado, por ferimento ou doença.

Deixou instruções que os seus homens mais fiéis começaram a pôr em prática, jurando fidelidade ao vice-presidente, António Dembo, alcandorado a presidente interino até ao próximo congresso. Os comandantes militares das várias «forças residuais» (como as chamou o Presidente José Eduardo dos Santos) têm carta branca para continuar as operações, sem contactos com «o Estado Maior General». Há bastante tempo que tinham aprendido a viver à sua custa, sem contar com a «logística» do movimento - desarticulada depois de 1999, com a queda dos últimos bastiões no planalto central angolano. O isolamento das várias unidades foi progressivamente agravado pelas sanções decretadas pela ONU, a «selagem» (nunca completamente estanque) das fronteiras terrestres e a desarticulação da rede de comunicações. Estas forças, avaliadas oficialmente em 8 a 12 mil homens, estão concentradas no Norte de Angola e entre Benguela e o Kuanza Sul. É desta UNITA que o general Dembo é agora presidente e é com ele que o Governo angolano quer estabelecer uma trégua e negociar a conclusão do processo de paz assinado em Lusaka.


Eduardo dos Santos e Jonas Savimbi assinaram em Lisboa
um acordo de paz que previa o fim da guerra civil (foto Revista Expresso)

O problema é que «esta» UNITA nunca aceitou os acordos de Lusaka, embora Dembo, numa entrevista à rádio Voz da América, em Janeiro, tivesse aceite esse protocolo, assinado em 1994, como «ponto de partida, não de chegada».

A «frente da rejeição» de Lusaka é liderada pelo actual secretário-geral da UNITA, Paulo Lukamba «Gato», «desaparecido» há vários meses. Sempre defendeu que a organização não pode sobreviver sem o seu «braço armado». Antes e depois das eleições de 1992, durante as tentativas da ONU para negociar um novo cessar-fogo e ainda depois de Lusaka e da formação do Governo de Unidade e Reconciliação Nacional, agitou a ameaça de um genocídio e do assassínio de Savimbi. Esperará Gato ainda ganhar a guerra? Na posse do que resta do aparelho, dos apoios externos e do «tesouro de guerra», os seus apoiantes acreditam que podem «virar a situação» contra Eduardo dos Santos. A campanha lançada no exterior para tentar provar que Savimbi não morreu derrotado pelas Forças Armadas Angolanas (FAA), mas assassinado por mercenários a soldo dos «neo-colo-nialista» portugueses, é um incitamento à resistência armada que põe em risco a vida de Dembo e dos seus homens, encurralados pelas FAA na província de Moxico.


Savimbi no Huambo a 7 de Novembro de 1975 (foto Revista Expresso)

No pólo oposto está a «UNITA de Luanda», formada por quadros políticos e militares que ficaram na capital. Conhecem bem a sociedade urbana angolana e as fraquezas do MPLA. Acreditam que o poder se conquista em Luanda, mas estão divididos sobre a maneira de o conseguir. Há os que permanecem fiéis a Savimbi, apesar das ameaça e pressões. E os que, como o ex-secretário-geral Eugênio Manuvakola, optaram pela ruptura, «refundando» a UNITA, sem Savimbi nem exército.

Outros tentaram a aventura em 1992 e fracassaram: Jorge Chicoti e o seu Fórum Democrático Angolano; Nzau Puna, Tony da Costa Fernandes e Paulo Tchipilica, fundadores da Tendência de Reflexão Democrática. Acusados de terem sido «comprados pelo MPLA» para traírem o seu partido de origem e liquidarem Savimbi, são apresentados pela propaganda do Galo Negro como «parte da nomenclatura corrupta». A UNITA Renovada teria tido a mesma sorte se não contasse com a personalidade de Ma-nuvakola e com os apoios que este filho de padre consegue angariar junto de algumas igrejas protestantes, inquietas com a influência da Igreja Católica.

Manuvakola é o presidente da UNITA «legal e democrática», reconhecida pelo Governo, estatuto que não fez ganhar muitos adeptos mas lhe garante lugar à mesa das negociações, seja qual for o desfecho da crise. Abel Chivukuvuku preferiu adoptar uma posição equidistante da «UNITA savimbista» e da «Renovada», com a secreta esperança de vir a ser o reunifícador do que descreve como uma «manta de retalhos». E Jaka Jamba já propôs convocar toda a «família da UNITA», sem exclusóes, numa convenção para definir o futuro do partido.

Mas o único homem que soube, até agora, lidar com todas as facções é o ex-chefe da representação da UNITA na Comissão Conjunta encarregue da aplicação dos acordos de paz, Isaías Samakuva, hoje refugiado em Paris. Tido como um homem recto e conciliador, de uma fidelidade sem falha ao «Mais Velho». Samakuva não gosta de queimar etapas. Enquanto Dembo for vivo, não reconhecerá outro presidente. Depois, se verá. "


Jonas Savimbi e N'Zau Puna (foto Revista Expresso)

O galo voa

«...E o vosso galo????»

- "Voa"

"Foi assim que vi Jonas Savimbi «incendiar» um enorme comício em Luanda, na capital eleitoral de 1992. O «Galo Negro» fez-se esperar durante horas a fio, horas de cantos e danças africanas envoltas em panos estampados da UNITA.

Depois o carisma do velho guerrilheiro levava multidões ao rubro, cercadas de homens armados, sempre atentos ao detalhe. A disciplina férrea dos homens da UNITA nunca desarmava. Em 1992, durante as escassas semanas em que Jonas Savimbi viveu em Luanda, no bairro Miramar, todo o quarteirão era vigiado pela chamada «Guarda Presidencial do dr. Jonas Savimbi». Uma «guarda» dentro da cidade, um detalhe apenas da estrutura de Estado dentro do Estado com que Savimbi mantinha a UNITA instalada em Angola. Nos redutos de Savimbi, em Luanda ou no Andulo, o «Mais Velho» mantinha ao seu redor uma corte de gente silenciosa e de obediência cega. No interior de Angola no Andulo, o chefe militar fazia questão de exibir um escritório de político. Sobre uma robusta secretária, juntava as biografias de Margaret Thatcher e de J. F. Kennedy. Político hábil e matreiro, em Outubro de 1992 Savimbi finta todas as contagens e chama os jornalistas ao Huambo para avançar com os primeiros resultados das únicas eleições angolanas. De uniforme militar, ou de sapato de verniz, Savimbi exibia uma face diplomática no contacto pessoal, contrastante com a muralha de dificuldades que se encontrava nos acessos. Derrota era um conceito que não concebia."

Cândida Pinto

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